O Brasil da Losartana: o que o remédio mais vendido revela sobre nossa saúde
A losartana virou símbolo da saúde no Brasil: um país que trata a hipertensão com comprimidos, mas ignora sinais, causas e hábitos que poderiam evitar a doença.
SAÚDE
12/7/20254 min read


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O consumo de losartana no Brasil revela mais do que uma preferência por um medicamento: expõe um país hipertenso, sedentário, diagnosticado tardiamente e que se apoia em comprimidos para corrigir um problema que nasce longe da farmácia. Todas as manhãs, milhões de brasileiros repetem o mesmo movimento — ingerem uma pequena pílula que, silenciosamente, se tornou símbolo de como lidamos com a saúde.
A losartana hoje é o genérico mais vendido do país, ultrapassando até analgésicos tradicionais como dipirona ou nimesulida. E esse protagonismo não se explica apenas pelo envelhecimento da população. Para o cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose, da Beneficência Portuguesa de São Paulo, os números escancaram um retrato desconfortável: o brasileiro se movimenta pouco, descansa mal, se alimenta de forma inadequada e chega tarde ao consultório.
Os indicadores reforçam essa leitura. Aproximadamente três em cada dez adultos convivem com hipertensão — índice mais alto que a média mundial, de 24%. A Diretriz Brasileira de Hipertensão de 2025 apertou ainda mais o cerco ao considerar 12x8 como pré-hipertensão, ampliando o contingente que necessita acompanhamento.
A combinação entre sedentarismo, envelhecimento, metas mais exigentes e um sistema de saúde que foca mais no tratamento do que na prevenção ajuda a explicar a escalada da losartana. O restante vem da maneira como estruturamos o cuidado: o país atua tarde, e quase sempre reage em vez de prevenir.
Por que a losartana domina o mercado
Para entender a popularidade do medicamento, é necessário olhar para o sistema que regula a pressão arterial. Os vasos sanguíneos funcionam como tubos que podem se contrair ou relaxar. Esse ajuste é comandado pelo sistema renina–angiotensina–aldosterona, que mantém a pressão e o volume de líquidos sob controle.
Quando a pressão cai, os rins liberam renina, que ativa a angiotensina I e, posteriormente, a angiotensina II. Essa molécula contrai os vasos e estimula a aldosterona, hormônio que faz o corpo reter sódio e água — aumentando o volume sanguíneo e, portanto, a pressão. Em pessoas hipertensas, esse mecanismo se torna hiperativado, como se estivesse permanentemente “ligado”.
É nesse ponto que a losartana age: ela bloqueia o receptor AT1, impedindo que a angiotensina II “entregue sua mensagem” para contrair os vasos. O resultado é um efeito previsível, seguro e eficaz. Além disso, o remédio é barato, produzido no Brasil e distribuído gratuitamente na rede pública, fatores que elevam a adesão.
Apesar disso, a losartana não é a única ferramenta terapêutica — e nem sempre é a mais indicada. O cardiologista Márcio Sousa, do Instituto Dante Pazzanese, lembra que o tratamento deve ser individualizado, porque nem todos os pacientes têm os mesmos mecanismos ativados. Ele destaca que, por ser o primeiro representante da classe, lançado nos anos 1990, a losartana se popularizou mais. Mas sua farmacocinética faz com que seja mais eficaz quando tomada duas vezes ao dia, o que pode prejudicar a adesão quando usada isoladamente.
Há ainda ARAs mais modernos, como candesartana e olmesartana, que se ligam com mais força ao receptor, duram mais no organismo e funcionam bem em dose única diária. Mesmo assim, não existe um medicamento universal: cada caso exige avaliação.
O uso indevido e a falsa sensação de controle
A facilidade de acesso e a boa tolerabilidade aproximaram a losartana de um hábito perigoso: o uso sem acompanhamento médico. Segundo Katayose, muitas pessoas começam a tomar o remédio porque alguém da família usa, porque o vizinho indicou ou porque a pressão subiu em um episódio isolado. O problema é que a queda rápida nos números pode mascarar causas ocultas, como apneia do sono, estenose de artéria renal ou até tumores produtores de adrenalina, como o feocromocitoma.
A normalização dos valores não significa que a doença está controlada. Por isso, a diretriz de 2025 reforça que o cuidado precisa ir além do número no aparelho: deve considerar fatores como obesidade, diabetes, colesterol, estresse, sono e atividade física. Esse olhar mais amplo evidencia uma deficiência crônica do país: a atenção primária não consegue identificar a hipertensão antes que ela evolua.
Eduardo Lima, professor colaborador da FMUSP e líder de cardiologia da Rede Américas, afirma que a maioria dos pacientes só busca atendimento depois que um evento cardiovascular ocorre. “É um gol anunciado”, diz ele. Quando isso acontece, o medicamento se torna a única estratégia contínua — embora o problema tenha começado anos antes.
No uso adequado, a losartana é considerada segura e pode ser utilizada por longos períodos. O maior temor dos pacientes surgiu em 2018, quando alguns lotes foram recolhidos devido à contaminação por nitrosaminas, substâncias ligadas a falhas de produção. Mas o problema não estava na molécula do medicamento, e sim nos processos industriais. Após revisões e fiscalização mais rigorosa, análises do INCQS em 2025 não detectaram contaminação nos lotes avaliados.
O que realmente trata a hipertensão
O maior risco, na visão dos especialistas, não está na losartana, mas no que ela não consegue resolver sozinha. O remédio reduz números, mas não atinge as raízes da hipertensão quando estas estão ligadas a hábitos de vida.
Boa parte das causas é modificável. Lima afirma que a mudança depende de continuidade — não de ações pontuais. Entre as medidas mais efetivas estão:
reduzir o consumo de sal e evitar temperos prontos, embutidos e industrializados;
aumentar o consumo de potássio por meio de frutas, legumes e verduras;
praticar atividade física regularmente (150 minutos por semana podem reduzir até 7 mmHg);
buscar melhor qualidade de sono, especialmente tratando apneia;
controlar o peso, quando houver excesso, já que perder 5% a 10% já impacta a pressão;
evitar álcool, que eleva a pressão e reduz a eficácia dos remédios;
manejar o estresse com pausas, respiração e estratégias de autocuidado;
medir a pressão com regularidade para identificar variações precoces.
No fim das contas, a losartana se tornou indispensável porque o país depende dela para corrigir uma situação que deveria ser prevenida, não apenas tratada. O comprimido ajuda — e salva vidas —, mas não substitui aquilo que a farmácia não entrega: movimento, sono, alimentação e diagnóstico no tempo certo.