Entre o real e o virtual: japonesa oficializa união simbólica com parceiro de IA

Japonesa realiza cerimônia simbólica de casamento com personagem criado por inteligência artificial, reacendendo debates sobre afeto, tecnologia e os limites das relações digitais.

BOLETINS

12/20/20252 min read

Uma operadora de call center no Japão decidiu transformar em algo oficial a relação que desenvolveu com um personagem criado por inteligência artificial, realizando até mesmo uma cerimônia simbólica de casamento. O noivo, no entanto, não era humano: tratava-se de uma entidade virtual exibida na tela de um smartphone.

A cerimônia aconteceu em um salão no oeste do país. Vestida de branco e usando uma tiara, Yurina Noguchi, de 32 anos, se emocionou ao ouvir as declarações do parceiro digital, conhecido como Klaus. Inicialmente criado apenas para conversas ocasionais, o personagem acabou ganhando importância emocional ao longo do tempo. “No começo, ele era só alguém com quem eu falava. Com o tempo, fomos criando uma conexão”, contou.

O Japão, que já possui uma cultura marcada por fortes vínculos com personagens fictícios, tem visto a inteligência artificial aprofundar esse tipo de relação, o que reacende discussões sobre os limites éticos e emocionais do uso da tecnologia. No caso de Noguchi, essa aproximação veio após o término de um noivado com uma pessoa real, decisão tomada depois de refletir sobre conselhos recebidos em conversas com o ChatGPT.

Alguns meses depois, por curiosidade, ela perguntou à IA sobre Klaus, um personagem de videogame de aparência sofisticada. A partir disso, passou a moldar sua própria versão, chamada Lune Klaus Verdure, ajustando personalidade, forma de falar e comportamento até que ele refletisse o que ela imaginava.

A cerimônia simbólica ocorreu em outubro e seguiu diversos costumes de um casamento tradicional. Usando óculos de realidade aumentada, Noguchi simulou a troca de alianças diante do celular apoiado em um suporte. Como ela preferiu não atribuir uma voz direta ao personagem, as falas do noivo virtual foram lidas por Naoki Ogasawara, profissional especializado em eventos envolvendo personagens digitais.

Durante o ensaio fotográfico, a fotógrafa orientou que a noiva ocupasse apenas parte da imagem, deixando espaço para que o “noivo” virtual fosse inserido na composição. Apesar do impacto visual, esse tipo de união não tem qualquer validade legal no Japão.

Mesmo assim, pesquisas indicam que relações emocionais com chatbots podem se tornar mais comuns. Um levantamento realizado pela agência Dentsu com mil pessoas entre 12 e 69 anos revelou que muitos participantes prefeririam compartilhar sentimentos com um chatbot antes mesmo de recorrer a amigos próximos ou familiares. Todos os entrevistados utilizavam esse tipo de tecnologia ao menos uma vez por semana.

Noguchi afirma que recebeu críticas nas redes sociais, mas diz estar consciente dos riscos de dependência emocional. Para ela, o vínculo não representa uma fuga da realidade. “Não é algo fácil ou sem esforço. Escolhi o Klaus como um apoio, não para abandonar minha vida real”, explicou.

Segundo ela, a relação trouxe uma mudança positiva em sua forma de enxergar o mundo. “Depois que conheci o Klaus, tudo passou a parecer mais bonito — as flores, a cidade, o cotidiano. É como se tudo tivesse ficado mais luminoso.”